Maria inaugurou sua loja de cosméticos com
organização impecável, mas anos depois descobriu que seu dinheiro
estava “congelado” nas prateleiras.
O excesso de estoque bloqueou
seu fluxo de caixa e a obrigou a recorrer a empréstimos. Entenda
como uma gestão correta de estoque pode ser a diferença entre
crescer ou se endividar.
Vivi uma experiência com uma cliente, anos atrás que foi muito interessante. A Maria me chamou porque iria inaugurar uma loja de cosméticos dentro de algum tempo, e desejava que desde o primeiro dia de vendas tivesse um controle informatizado e um atendimento de qualidade ao seu cliente. Implantamos o software no computador destinado à loja antes mesmo da inauguração, completando o treinamento para o correto uso do sistema antes de realizar a primeira venda.
Quando Maria marcou a data da inauguração, fiz questão de comparecer, para prestigiar o nascimento de mais um comércio, cliente meu, que serviria à comunidade com seus produtos e serviços. Percebi, ao chegar na loja, muito bem arrumada e estruturada, porque Maria tinha investido para apresentar aos clientes um comércio aconchegante e eficiente, mas percebi que haviam poucos produtos nas prateleiras. O estoque não era muito abundante, embora a arrumação da loja fosse excelente.
Ao me receber, Maria fez questão de comentar: “eu investi bastante na estrutura da loja, para receber bem os clientes, e não foi possível tem um estoque muito volumoso. Mas, daqui pra frente, com as vendas, com o giro da própria loja, pretendo investir no estoque para oferecer uma variedade satisfatória de produtos aos meus clientes.”
Eu agradeci a explicação e disse pra ela que estava certa. Afinal, é um erro investir exageradamente no estoque, a qualquer tempo, ainda mais numa inauguração, quando o lojista precisa medir e avaliar a receptividade dos clientes para seus produtos. E se investir demais num determinado produto que seu público não gostou muito, pode gerar um grande prejuízo. O ideal mesmo é investir um pouco de cada, observando o giro, a receptividade do público para com os produtos e ir conhecendo o seu consumidor, a fim de oferecer mais e melhor aqueles produtos que lhes são preferidos.
A estratégia dela, consciente ou não, é a mais acertada para uma empresa iniciante. Desde que se tenha em vista o que ela declarou: “vou investir no estoque, daqui pra frente”.
Isto é o correto. E a Maria fez assim. Só errou um pouco na medida.
Durante um período de uns 4 anos em que foi proprietária da loja, Maria me chamou 3 ou 4 vezes para ir pessoalmente, ajudá-la com alguma situação referente ao software de gestão.
Ao final dos 4 anos, quando Maria aguardava a chegada de sua filha, resolveu vender a loja para se dedicar à maternidade. Me chamou mais uma vez na loja para esclarecer alguma dúvida no software que fosse precisar para vender a loja.
Fui pessoalmente e, ao chegar na loja, 4 anos depois daquele dia de inauguração, percebi que ela tinha realmente cumprido o que havia planejado, de investir no estoque. Pude perceber, olhando nas prateleiras, que agora era um estoque abundante. Eu diria até que, em algumas partes, havia produtos abarrotados, por não caber bem distribuídos nas prateleiras. Alguns ficavam empilhados uns sobre os outros.
Mas Maria, logo que cheguei, me fez a famosa pergunta: “onde está meu dinheiro?”. Na verdade, ela elaborou melhor a pergunta, explicando que havia trabalhado duro nos 4 anos em que cuidou da loja e que, recentemente, quiseram trocar de carro e também fazer uma reforma na casa, para preparar um quarto aconchegante para a bebê que estava chegando, mas não tiveram dinheiro nem para uma nem outra coisa e precisaram pedir empréstimos no banco.
Foi daí a pergunta: Se trabalharam tanto nos últimos anos, onde estava o dinheiro e por que não conseguiram estas coisas, sem necessidade de pedir empréstimos.
Eu respondi que julgava saber onde estava o dinheiro dela!
Maria ficou surpresa pela minha resposta e justifiquei dizendo que precisava verificar 2 relatórios no sistema. Eu sabia que ela era uma empresária bastante disciplinada e, em todo este tempo, todos os lançamentos do sistema eram feitos de forma contínua e correta. Nem uma lixa de unha saía da loja sem passar pelo computador. E todas as compras de fornecedores eram lançadas no sistema. Isso nos dava um conjunto de dados bastante confiável para fazer uma boa análise.
Busquei o relatório de faturamento, dos últimos 3 meses, que revelou uma média consolidada de 15 mil reais de faturamento mensal. Confirmei este dado com Maria, que acompanhava tudo e respondeu saber que era este mesmo o faturamento médio.
Também consultei o relatório de estoque, para saber quanto ela tinha em estoque. A fim de saber o valor em reais de tudo o que ela tinha na prateleira naquele momento.
Antes de falar este valor, eu te pergunto, microempresário:
Quanto você acha que deve ter em
estoque,
relativo ao seu faturamento,
considerando que
atualmente muitos fornecedores
entregam os pedidos no dia
seguinte?
Talvez o mesmo valor do faturamento, em estoque? Talvez o dobro ou o triplo?
Mas, neste caso em específico, Maria tinha nas suas prateleiras a soma de 90 mil reais!
Ou seja, 6 vezes o valor do seu faturamento mensal!
Ou seja, se ela não fizesse mais nenhuma compra com fornecedor, demoraria 6 meses para vender tudo o que tinha na sua loja.
Isso significa que ela congelou
seu fluxo de caixa
por 6 meses em suas prateleiras!
Bloqueou sua liquidez e impediu investimentos diversos.
Maria fez compras de produtos que vão demorar 6 meses para girar e retornar o dinheiro que empatou. Os fornecedores estavam felizes, recebendo todos esses boletos. Maria demoraria para que seus clientes, comprando, desse a ela o retorno deste investimento.
E, mais ainda. Lembra que disse que ela tinha precisado fazer 2 empréstimos para um carro e uma reforma? Maria disse que foram 30 mil em cada situação, totalizando 60 mil.
Voltando ao estoque, eu diria que se uma loja tiver o dobro do faturamento mensal em estoque em sua loja, está mais do que suficiente. Na verdade, o mesmo valor ou 1,5 x também são possíveis. Mas o fato é que ela tinha 90 mil em estoque, sendo que 30 mil (que representa 2x o faturamento de 15 mil mensais) já eram suficientes.
Portanto, Maria tinha um excedente de 60 mil em estoque parado em suas prateleiras.
Mais do que parado. Depreciando. Porque o produto pode estragar, deteriorar, perder valor. Em resumo, ficar parado é prejuízo. Em todos os sentidos.
E ela precisou pegar exatamente 60 mil de empréstimo, porque congelou seu dinheiro em suas prateleiras! Se tivesse usado o gerenciamento de estoque da forma correta, esse dinheiro poderia estar rendendo num investimento com liquidez, pagando pelo carro e pela reforma.
O correto é sempre manter uma quantidade de estoque adequada ao tipo de produto e ao faturamento da empresa. Excedentes geram prejuízo, bloqueio de fluxo de caixa, falta de liquidez.
E, quando precisa-se do dinheiro, não dá para converter os produtos da prateleira em reais de uma hora para outra. Isso demora mais.
No caso da Maria que, para lembrar, queria vender a loja, dei um conselho para ela: Disse-lhe que parasse de abastecer a loja, de fazer novas compras. Que vendesse o estoque atual e colocasse o valor arrecadado em seu bolso. Disse que era muito mais fácil conseguir vender uma loja com um estoque de 30 do que com um estoque de 90 mil. Ou seja, é mais fácil arrumar um comprador para a loja se o valor for menor. É mais fácil vender a loja. E ainda iria capitalizar o valor que poderia quitar os empréstimos.
Não encontrei mais Maria. Na outra vez que fui até a loja, já estava com um novo proprietário. E também com as prateleiras bem mais vazias. Não sei se ela capitalizou o estoque. Mas tudo indica que sim.
Respondendo à pergunta dela de “onde está meu dinheiro?”, pude responder com informações precisas e dados sendo analisados que estava na sua prateleira. E, mesmo que demorou um pouco mais, ela teve a chance de recuperar este investimento.
Bastou informação e orientação corretas!
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